Reforma Tributária: o que muda e como se preparar

Reforma Tributária: o que muda e como se preparar
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A Reforma Tributária do consumo representa uma das maiores transformações estruturais já realizadas no ambiente de negócios brasileiro. Mais do que uma mudança de alíquotas ou a substituição de alguns tributos, trata-se de uma alteração profunda na lógica do sistema tributário, na forma como as empresas formam preços, gerenciam fluxo de caixa e estruturam suas operações.

A nova estrutura de tributação vem sendo amplamente debatida por especialistas ao longo dos últimos anos. E em um desses debates, no evento “Nossa Reforma Tributária”, na FGV (Fundação Getulio Vargas), em São Paulo, Luiz Roberto Peroba, sócio do Pinheiro Neto Advogados, e Eurico Diniz de Santi, docente da FGV que participou ativamente da construção do texto da Reforma Tributária, deram um panorama geral do que vai mudar nos próximos anos.

O PagCorp estava lá, acompanhando tudo de perto para mostrar como o novo sistema funcionará na prática e quais são os principais impactos que as empresas devem começar a considerar desde já.

O novo sistema e a adoção do modelo IVA

A principal mudança trazida pela Reforma é a adoção de um modelo de tributação sobre consumo inspirado no Imposto sobre Valor Agregado (IVA), utilizado em grande parte do mundo. Hoje, segundo Peroba, cerca de 170 jurisdições já utilizam sistemas desse tipo.

“Quando eu converso com executivos de empresas globais que investem no Brasil, a reação costuma ser: finalmente o País está adotando algo que é compreensível”, afirma o advogado.

O Brasil sempre foi considerado um caso à parte no cenário internacional. O sistema antes utilizado combinava tributos federais, estaduais e municipais com bases diferentes e regras complexas, o que tornava extremamente difícil para empresas estrangeiras compreenderem a estrutura de impostos no País. Essa complexidade também gerava um enorme volume de litígios tributários. Segundo Peroba, o contencioso tributário brasileiro chega a representar cerca de 75% do PIB, um número extremamente elevado quando comparado a outros países.

Com a Reforma, o objetivo é substituir tributos como PIS, COFINS, ICMS e ISS por um modelo mais padronizado e alinhado com práticas internacionais. A lógica passa a ser baseada em três pilares: base ampla de incidência, não cumulatividade plena e tributação no destino.

Transparência tributária: consumidores passam a enxergar os impostos

Um dos aspectos conceituais mais importantes do novo sistema é o aumento da transparência sobre a carga tributária. Atualmente, grande parte dos impostos está embutida no preço final dos produtos e serviços, o que dificulta que consumidores compreendam quanto estão pagando em tributos.

Com o novo modelo, a tendência é que o valor do imposto seja destacado de forma clara nas notas fiscais. Na prática, isso significa que as transações passarão a ser feitas em bases líquidas, separando preço e tributo. “Hoje você recebe uma nota fiscal e não tem ideia do que é imposto e do que é preço. O novo sistema separa essas duas coisas”, explica Peroba.

Essa mudança pode alterar significativamente o comportamento do consumidor e aumentar a pressão sobre governos em relação ao nível da carga tributária. Ao visualizar claramente o valor do imposto em cada compra, a sociedade tende a participar mais ativamente do debate sobre tributação.

A alíquota do IVA no Brasil: por que os números geram debate

Um dos temas que mais gerou repercussão pública foi a possível alíquota de referência próxima de 28%. Em muitos casos, essa taxa foi interpretada como uma nova elevação da carga tributária. No entanto, especialistas apontam que a realidade é diferente.

Segundo Peroba, essa alíquota representa basicamente o nível de arrecadação que o sistema já possui hoje, apenas de forma mais transparente. “Todo mundo fala que é o maior IVA do mundo. Mas o sistema atual já arrecada algo próximo disso. A diferença é que agora será possível enxergar”, revela.

Além disso, o valor de referência não significa que todas as atividades pagarão exatamente essa taxa. O sistema prevê reduções, isenções e regimes específicos para determinados setores, o que tende a reduzir a alíquota média efetiva.

O fim dos benefícios fiscais e a mudança na competitividade entre empresas

Um dos impactos mais relevantes da reforma será a redução dos benefícios fiscais que hoje influenciam fortemente a estrutura de custos das empresas brasileiras.

Durante décadas, diversos estados e municípios utilizaram incentivos tributários para atrair empresas e investimentos. Em muitos casos, esses benefícios acabaram se tornando parte fundamental da rentabilidade de determinados negócios.

Peroba destaca que essa mudança pode revelar um cenário inesperado para muitas companhias. “Quando a gente analisa os balanços de várias empresas, percebe que boa parte do lucro vem de benefício fiscal e não da atividade operacional”, afirma.

Com o novo sistema, a tendência é que o ambiente competitivo se torne mais neutro, reduzindo distorções criadas por incentivos fiscais regionais. Isso pode exigir revisões profundas nos modelos de negócio de algumas empresas.

Cronograma da Reforma Tributária: quando as mudanças começam

Apesar de o período de transição completo se estender até o início da próxima década, as mudanças começam muito antes disso.

Um dos primeiros marcos será a publicação das regulamentações que detalharão a implementação prática do novo sistema. Após essa publicação, as empresas terão poucos meses para iniciar a adaptação de seus processos e sistemas.

Segundo Peroba, o prazo inicial pode ser bastante apertado. “Depois da regulamentação, as empresas terão cerca de quatro meses para começar a emitir notas fiscais dentro do novo modelo em ambiente de teste”, destaca.

Outro ponto importante envolve o fim imediato de alguns tributos. PIS e COFINS, por exemplo, devem ser substituídos pela nova Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) já nos primeiros anos de implementação.

Já os tributos estaduais e municipais (ICMS e ISS) passarão por um processo de transição mais longo até a consolidação do novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

O impacto da Reforma Tributária nos sistemas das empresas

Um dos maiores desafios práticos da reforma será tecnológico. As empresas precisarão adaptar seus sistemas de gestão, faturamento e emissão de documentos fiscais para o novo modelo.

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O Brasil possui uma infraestrutura fiscal digital bastante avançada, especialmente com a Nota Fiscal Eletrônica. No entanto, a reforma exige padronizações adicionais e mudanças relevantes nos sistemas de gestão empresarial. “O que as empresas estão fazendo agora é trabalhar com fornecedores de software para adaptar sistemas. Ninguém pode parar de emitir nota fiscal”, afirma Peroba.

Essa adaptação envolve desde ajustes nos ERPs até mudanças na forma de cálculo de preços e tributos nas operações comerciais.

Split Payment: o impacto no fluxo de caixa das empresas

Outro ponto que tem gerado grande debate no mercado é o chamado Split Payment, mecanismo que pode alterar significativamente o fluxo de caixa das empresas.

No modelo atual, o imposto cobrado nas vendas costuma permanecer temporariamente no caixa da empresa até o momento do pagamento ao governo. No novo sistema, a ideia é que o valor do tributo seja separado automaticamente no momento da transação.

“Hoje as empresas trabalham por algum tempo com um dinheiro que, na verdade, é do imposto. O novo sistema tende a retirar esse valor do caixa imediatamente”, explica Peroba. Isso pode reduzir a flexibilidade financeira de algumas empresas e exigir ajustes na gestão de capital de giro.

Tributação no destino e o fim da guerra fiscal

Uma das transformações estruturais mais relevantes da Reforma é a mudança da tributação da origem para o destino. Na prática, isso significa que o imposto passará a ser arrecadado no local onde ocorre o consumo, e não mais onde o produto ou serviço foi produzido.

Essa alteração tende a reduzir a chamada guerra fiscal entre estados e municípios, que por décadas ofereceram incentivos tributários para atrair empresas. Segundo Peroba, essa mudança também deve redistribuir receitas entre municípios. “Hoje muitos serviços digitais concentram arrecadação em poucos municípios. Com a tributação no destino, essa receita passa a ser distribuída de forma muito mais ampla”, revela.

Regimes específicos e setores com tratamento diferenciado

Embora o objetivo da Reforma seja criar um sistema mais uniforme, alguns setores terão regimes diferenciados. Entre eles estão o setor financeiro, instituições de pagamento e determinadas atividades imobiliárias.

No caso das instituições financeiras, por exemplo, parte das receitas pode seguir um modelo híbrido, combinando tributação sobre serviços e tratamento específico para receitas financeiras.

Esse tipo de regime especial não é incomum em sistemas de IVA ao redor do mundo, já que determinados setores apresentam particularidades que dificultam a aplicação do modelo padrão.

O futuro do Simples Nacional no novo sistema tributário

Outro tema relevante nas discussões sobre a reforma é o futuro do Simples Nacional. Embora o regime não tenha sido eliminado, especialistas apontam que o novo sistema pode reduzir sua atratividade ao longo do tempo.

Segundo Peroba, empresas que permanecem no Simples podem gerar menos créditos tributários para seus clientes, o que pode influenciar decisões comerciais.

O professor Eurico Diniz de Santi observa que existe uma alternativa dentro do novo modelo. “A empresa pode manter os benefícios do Simples em tributos como imposto de renda e contribuição sobre folha, mas optar por participar do sistema de créditos do IVA”, revela Eurico.

Essa possibilidade pode incentivar muitas empresas a migrar gradualmente para o novo modelo.

Preparação para a Reforma Tributária

Diante de todas essas mudanças, especialistas recomendam que empresas iniciem desde já um processo estruturado de preparação.

Entre as principais frentes de trabalho estão:

  • revisão de modelos de preço e margem
  • análise de impacto no fluxo de caixa
  • adaptação de sistemas e ERPs
  • reavaliação de cadeias de fornecedores
  • estudo de impactos logísticos e operacionais

A Reforma Tributária representa uma mudança estrutural na forma como os negócios operam no Brasil. Empresas que iniciarem o processo de adaptação mais cedo terão melhores condições de navegar esse novo ambiente.

Soluções que aumentem o controle financeiro, a visibilidade de despesas e a eficiência operacional como o PagCorp se tornam ainda mais relevantes para o mercado.

Para organizações que buscam se preparar para esse novo cenário, acompanhar de perto as mudanças regulatórias e fortalecer sua gestão financeira será fundamental para atravessar essa transição de forma mais segura possível.

Imagem: Freepik

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