Considerado um dos principais eventos de digital commerce da América Latina, o VTEX Day reúne lideranças para discutir o futuro do varejo, tecnologia e gestão. E no evento deste ano, um dos painéis que mais provocaram reflexão foi “IA Não é Hype: É Vantagem Competitiva”, conduzido por Patricia Florissi, PhD e diretora técnica do Google.
A apresentação não foi apenas sobre tecnologia. Foi uma aula sobre como a inteligência artificial evoluiu e, principalmente, sobre como ela muda a lógica de operação das empresas.
De entender palavras a entender o mundo
Para explicar por que a IA deixou de ser hype, Patricia voltou à base técnica que sustenta tudo o que estamos vendo hoje.
O ponto de partida está na forma como máquinas passaram a entender linguagem. Em vez de tratar palavras de forma isolada, modelos passaram a organizá-las em estruturas matemáticas, os chamados “Embeddings”, capazes de capturar significado e contexto. Isso permitiu que sistemas não apenas identificassem palavras, mas entendessem relações entre elas.
Mas o verdadeiro salto veio com a arquitetura dos “Transformers”, apresentada em um dos papers mais influentes da última década. A partir dela, tornou-se possível analisar relações entre palavras dentro de um contexto completo, com alto poder de processamento e escala.
“Essa conta mostrou os fundamentos do que aconteceu na IA generativa”, afirmou Patricia, mostrando que o caminho tinha sido aberto para algo maior.
A partir daí, a evolução foi rápida. O mesmo princípio usado para linguagem passou a ser aplicado a imagens, vídeos, áudio e outros formatos de dados. O resultado é o que hoje se chama de “multimodalidade”, a capacidade de a IA entender diferentes tipos de informação de forma integrada.
O salto que muda o jogo: IA que entende contexto e realidade
Se a primeira fase da IA foi entender linguagem, a da sequência é ainda mais ambiciosa: entender o mundo. A PHD destacou o avanço dos chamados modelos multimodais e, principalmente, dos “World Foundational Models”, que não apenas processam dados, mas conseguem simular e prever comportamentos do mundo físico.
Na prática, isso significa sair de uma IA que responde perguntas para uma IA que antecipa cenários. “Nós estamos empoderando as linguagens naturais a ter o mesmo nível, em teoria, de raciocínio que os seres humanos”, revelou Patricia.
Essa capacidade de integrar diferentes fontes de informação (texto, imagem, som, sensores) e gerar inferências complexas é o que sustenta a próxima onda de transformação nos negócios. E essa transformação, segundo ela, não será gradual. “Nos próximos 10 anos, teremos um impacto 10 vezes maior do que uma revolução industrial em um décimo do tempo”, decretou Patricia.
Do e-commerce ao “autonomous commerce”
Para tornar essa visão mais tangível, Patricia Florissi apresentou um cenário hipotético, mas plausível, de como o consumo pode evoluir.
A história gira em torno da Mônica, uma personagem que utiliza um agente de IA pessoal. Esse agente não apenas responde comandos, mas interpreta contexto, antecipa necessidades e executa ações de forma autônoma.
Ao identificar uma necessidade (um ambiente de trabalho inexistente em um hotel, por exemplo), o sistema:
- entende o contexto a partir de múltiplas fontes (agenda, sensores, ambiente),
- projeta uma solução ideal,
- negocia com fornecedores,
- organiza logística,
- e executa a entrega.
Esse exemplo ilustra uma mudança estrutural: o consumo deixa de ser reativo e passa a ser preditivo e automatizado.
Segundo Patricia, isso impacta toda a cadeia:
- o consumidor se torna um gerador de intenções,
- o vendedor passa a ser um orquestrador de soluções,
- o produto deixa de ser fixo e passa a ser “líquido” (usado sob demanda),
- e a jornada de compra se torna contínua e sem fricção.
Modelos, agentes e protocolos: a nova base operacional
Para que esse cenário funcione, Patricia organizou a explicação em três pilares tecnológicos que já estão em desenvolvimento: modelos, agentes e protocolos.
Os modelos funcionam como o cérebro, responsáveis por entender padrões, gerar respostas e simular cenários.
Os agentes são a execução: sistemas orientados a objetivos, capazes de planejar, agir e replanejar de forma autônoma.
E os protocolos funcionam como a linguagem, o que permite que diferentes sistemas se comuniquem, negociem e operem juntos.
E aqui está uma das mudanças mais profundas para o mundo dos negócios: softwares deixam de ser ferramentas passivas e passam a atuar como entidades autônomas, capazes de tomar decisões e executar tarefas.
O que isso muda na prática para empresas
Apesar da complexidade técnica, o impacto para as empresas é bastante concreto.
Estamos caminhando para um ambiente em que:
- decisões são tomadas com base em contexto em tempo real,
- processos são automatizados de ponta a ponta,
- e operações passam a ser coordenadas por sistemas inteligentes.
Isso tem implicações diretas para eficiência, custos e escalabilidade, temas centrais para qualquer área financeira.
Mais do que adotar tecnologia, o desafio passa a ser redesenhar processos inteiros com base nessas novas capacidades.
Automatizar ou reinventar?
Na parte final da palestra, Patricia trouxe uma reflexão que conecta tecnologia e estratégia, propondo uma distinção simples, mas poderosa, e que tem tudo a ver com o papel das lideranças: tecnologia apenas para automatizar o presente ou utilizá-la para desenhar o futuro?
“A transformação digital não é tirar uma foto do que já existe. É desenhar o futuro com a tecnologia”, afirmou a PHD.
A partir dessa ideia, ela propõe o conceito de “tecnografar”, que seria a capacidade de imaginar novos cenários e construí-los com base nas ferramentas disponíveis. E deixa uma provocação direta: “A gente vai usar a IA para automatizar o presente ou para imaginar e construir o futuro?”
O que fica para líderes financeiros
A ideia do painel reforça que a IA já deixou de ser uma tendência e passou a ser uma alavanca concreta de vantagem competitiva. Para líderes financeiros, isso significa uma mudança de papel: sair de uma atuação focada apenas em controle e passar a participar ativamente da transformação dos modelos de negócio.
Eficiência, previsibilidade e controle continuam essenciais, mas agora dentro de um contexto muito mais dinâmico, automatizado e orientado por dados.
E é exatamente nesse ponto que o PagCorp se posiciona: ajudar empresas a transformar gestão financeira em inteligência estratégica, preparada para um cenário em que tecnologia, operação e decisão caminham cada vez mais integradas.
Imagem: PagCorp





