A Reforma Tributária já começou a transformar a forma como empresas brasileiras precisam olhar para preço, fluxo de caixa, contratos e gestão financeira. Esse foi um dos temas do primeiro PagCorp Insights de 2026, evento promovido pela ACG | PagCorp para discutir tendências e mudanças que impactam diretamente o ambiente corporativo.
Um dos painéis do evento reuniu Mariana Carneiro, especialista em Direito Tributário e sócia da PwC Brasil, e Dan Josua, sócio e Diretor de Inovação e Pessoas da ACG | PagCorp. Ao longo da conversa, os especialistas mostraram como a transição para o novo sistema tributário vai muito além do setor fiscal e deve alterar decisões estratégicas dentro das empresas, principalmente nas áreas financeira, comercial, tecnológica e operacional.
Formação de preços, fluxo de caixa e margem entram no centro da estratégia
Para Mariana Carneiro, a principal discussão prática da Reforma Tributária está diretamente ligada à formação de preços. Segundo ela, as empresas precisarão entender com profundidade como a nova carga tributária impacta cada operação, produto e modelo de negócio. “O ponto na prática é: o quanto eu mudo meu preço. Quanto fica mais barato, quanto fica mais caro”, afirmou Mariana.
A especialista explicou que o modelo atual cria distorções porque a tributação varia conforme origem, destino e tipo de operação, especialmente no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Com o novo IVA (Imposto sobre Valor Agregado), formado por CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), a lógica muda e exige uma revisão completa das estratégias comerciais e financeiras.
Ao detalhar os impactos da mudança, Mariana mostrou que empresas podem enfrentar cenários muito diferentes dependendo da estrutura da operação. Em alguns casos, manter o preço atual pode significar perda de margem e até prejuízo. Em outros, a redução da carga efetiva pode aumentar a lucratividade. “Você pode ter portfólio que ganha dinheiro e portfólio que perde dinheiro”, explicou.
Segundo ela, isso deve mudar inclusive a dinâmica das negociações entre empresas. “Os preços serão debatidos de uma forma diferente a partir do ano que vem. E por isso as áreas de vendas precisam estar muito bem antenadas sobre qual é o impacto da reforma”, destacou Mariana.
Outro tema que ganhou protagonismo durante o painel foi o fluxo de caixa. Mariana ressaltou que o novo modelo tributário, principalmente com a implementação gradual do “split payment” (mecanismo de cobrança automática que separa o valor do imposto do valor da mercadoria no momento da compra), terá impacto direto na disponibilidade de capital das empresas.
A sistemática fará com que parte do imposto seja recolhida automaticamente pelos meios de pagamento, reduzindo o espaço para utilização desse valor como capital de giro temporário. “A reforma tributária nas relações business to business é efeito caixa na veia”, resumiu.
Segundo ela, muitas empresas precisarão revisar planejamento financeiro, estrutura de caixa e até estratégias de endividamento para enfrentar os primeiros anos da transição. “Para muitas empresas, fluxo de caixa é questão de sobrevivência”, alertou Mariana.
O painel também abordou os efeitos da Reforma Tributária sobre o setor de serviços, que deve enfrentar uma das maiores mudanças de carga tributária no novo sistema. Mariana explicou que empresas de tecnologia, plataformas digitais, aplicativos e prestadores de serviço tendem a sofrer aumentos relevantes de tributação, especialmente em operações voltadas ao consumidor final. “O setor de serviço é altamente impactado”, afirmou.
A especialista citou inclusive empresas globais de tecnologia e streaming que já começaram a comunicar possíveis reajustes relacionados à Reforma Tributária no Brasil. Segundo ela, o impacto deve ser ainda maior em negócios voltados às classes C, D e E, onde a elasticidade de preço tende a ser mais sensível.
Dan Josua complementou o debate reforçando que empresas de tecnologia devem sentir os efeitos da mudança de forma ainda mais intensa. “O impacto ainda é maior. Vai de 14 para 28”, destacou.
Tecnologia e automação devem acelerar a adaptação das empresas
Além da discussão tributária, o painel trouxe reflexões sobre tecnologia, automação e gestão de despesas corporativas. Mariana destacou que a Reforma Tributária exigirá atualização de ERPs, motores fiscais, processos internos e sistemas de controle.
“A pergunta é: como está a sua estrutura hoje? Onde está seu ERP? Como está sua solução fiscal?”, questionou Mariana.
Para ela, o avanço da digitalização deve transformar inclusive a relação entre empresas e governo nos próximos anos, com processos cada vez mais automatizados e monitorados em tempo real.
Na sequência, Dan Josua mostrou como a ACG | PagCorp vem utilizando inteligência artificial e automação para ajudar empresas a aumentarem o controle sobre despesas corporativas, reembolsos e captura de informações fiscais. Segundo ele, um dos principais desafios das empresas está justamente nas pequenas despesas que acabam fora dos sistemas de controle e geram perda de informação e de créditos tributários.
“A melhor informação é uma informação clara e útil. Não é só o dado jogado, é o dado tratado numa informação que mude a prática das empresas no dia a dia”, afirmou Josua.

O executivo explicou que, com a Reforma Tributária, a qualidade das informações registradas pelas empresas ganhará ainda mais importância, principalmente na conciliação de créditos tributários e no acompanhamento das movimentações fiscais em tempo real. Segundo ele, soluções de automação devem ajudar as empresas a reduzirem erros operacionais e ampliarem o controle sobre gastos corporativos.
Josua também destacou que a inteligência artificial pode contribuir para automatizar validações de despesas, identificar inconsistências e garantir maior aderência às políticas internas das companhias. “As informações em tempo real permitem ação em tempo real”, disse.
Outro ponto levantado por ele foi a necessidade de ampliar a visibilidade sobre despesas consideradas menores, mas que muitas vezes escapam dos controles tradicionais das empresas e acabam impactando a gestão financeira e tributária.
“Tudo que eu quero saber sobre o que está acontecendo precisa estar garantido dentro das políticas da empresa”, destacou Josua.
Ao final, Dan reforçou que as empresas precisarão cada vez mais de informação estruturada e capacidade de adaptação para enfrentar o novo cenário tributário. “Nesse mundo onde ninguém tem clareza de quais são os passos para cada uma das realidades das empresas, a melhor informação é uma informação clara e útil”, finalizou.
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Imagens: PagCorp





